Vidas “Desordenadas”
Nuno R. Fernandes
2ª Tessalonicenses • Sermon • Submitted • Presented
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Transcript
Leitura da Escrituras
Leitura da Escrituras
6 Mandamo-vos, porém, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente e não segundo a tradição que de nós recebeu. 7 Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos, pois que não nos houvemos desordenadamente entre vós, 8 nem, de graça, comemos o pão de homem algum, mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós; 9 não porque não tivéssemos autoridade, mas para vos dar em nós mesmos exemplo, para nos imitardes. 10 Porque, quando ainda estávamos convosco, vos mandamos isto: que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também. 11 Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando, antes, fazendo coisas vãs. 12 A esses tais, porém, mandamos e exortamos, por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão. 13 E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem. 14 Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. 15 Todavia, não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão.
Introdução
Introdução
Após elogiar e confortar os tessalonicenses a respeito das dificuldades pelas quais estavam a passar, corrigindo alguns erros doutrinários pelo caminho, Paulo termina a carta como costuma fazer noutros casos: dando orientações mais práticas.
É sempre bom relembrar que a nossa vida não é feita somente de teologia, teoria, mas de um viver coerente com o que de Deus conhecemos. É certo que precisamos de corrigir erros doutrinários, e de alinhar a nossa esperança com a do evangelho, mas também precisamos de uma prática de vida que reflita a nossa fé. A vida cristã vive-se no encontro do que conhecemos e do que fazemos.
O assunto em questão é o “trabalho” e a relação de alguns cristãos em Tessalónica com o mesmo.
Mas antes de entrarmos na realidade de Paulo, não precisamos de muito para perceber que a visão que a sociedade tem do “trabalho” em geral é negativa. Trabalhamos só porque precisamos… porque precisamos de comer, de pagar as contas, comprar isto e aquilo. Muitos, se pudessesem, não trabalhavam de todo…
A longo da história, desde os gregos aos romanos, o trabalho manual era visto como algo inferior, próprio de escravos e de uma classe social mais baixa. Mesmo alguns pais da igreja, como Eusébio de Cesareia ( O pai da história da igreja), tinham uma visão dualista do trabalho, em que os cristãos de primeira classe serviam só a Deus e, os de segunda classe, tinham forçosamente de trabalhar no ambito secular.
Foi só com a Reforma que o “trabalho” começou a ver a sua dignidade restaurada no pensamento cristão.
Claro que como o sábio Salomão percebeu, de um ponto de vista meramente humano, o trabalho é vaidade:
11 E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito; e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito e que proveito nenhum havia debaixo do sol.
É do ponto de vista de Deus que devemos considerar o valor e a dignidade que o “trabalho” tem:
24 Não há nada melhor para o homem do que comer e beber e permitir-se ter prazer no seu trabalho. Vi que isso também vem da mão de Deus.
13 Compreendi também que poder comer, beber e desfrutar do seu trabalho é um presente de Deus.
19 E, quanto ao homem a quem Deus deu riquezas e bens e capacidade para desfrutá-las, receba a sua parte e alegre-se com o seu trabalho, isso é um presente de Deus. 20 Pois não se lembrará muito dos breves dias da vida; porque Deus lhe enche o coração de alegria.
O “trabalho” é dom de Deus, pelo que não devemos ter uma visão meramente utilitarista do “trabalho”. Para o cristão, nenhum trabalho deve ser, meramente, secular, pois ele também representa um oportunidade para darmos glória a Deus:
31 Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para a glória de Deus.
Esta visão cristã do “trabalho”, para além do que já foi referido, assenta também em duas ideias importantes:
1 - Deus ordena ao Homem que trabalhe, e não apenas que descanse
9 Seis dias trabalharás e farás o teu trabalho;
2 - Deus é o próprio que dá o exemplo de “trabalho”
17 Mas Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também.
Voltando a Tessalónica. Alguns cristãos não estavam a viver de acordo com esta correta perspectica do trabalho.
Assim, nesta última secção Paulo vai identificar o problema e vai aconselhar a forma de reagir ao mesmo. Após percorrermos esse caminho, iremos procurar aplicá-lo ao contexto da igreja local.
Temos então O Problema, A reação, A aplicação
1. O Problema
1. O Problema
Paulo reconhecia que alguns cristãos em Tessalónica viviam “desordenadamente” [v.6]
O termo <desordeiro> gr. atakos, é usado no contexto militar referindo-se àquele soldado que está fora de ordem, comportando-se de forma insubordinada. A palavras era usada para se referir aqueles que não cumpriam com as suas responsabilidades.
Mas aqui no contexto, qual era a falha concreta? No v.11 Paulo define o conceito dizendo que são aqueles que vivem “...não trabalhando, antes fazendo coisas vãs”. Alguns recusavam-se a trabalhar, sugando a congregação em seu benefício.
Não são claras as motivações daqueles que não trabalhavam. Podemos admitir que o problema até era de origem teológica, ou seja, na expectativa da iminente vinda do Senhor, talvez pensassem que nem valia a pena trabalhar.
Uma boa expectativa teológica não dá aval a viver de forma errada.
O que fica claro que Paulo está a combater um certo oportunismo. Em nome da fé, alguns aproveitavam-se da generosidade dos restantes. Paulo é perentório ao afirmar que “se alguém não quiser trabalhar não coma também!” [v.10b]. Inclusivé Paulo vai mesmo relembrar o exemplo que deram aquando da sua chegada àquele lugar. [v.6b-9]
Ser cristão e generoso não é ser cego. Existem oportunistas! Estes não são um mal necessário, mas são um problema que tem de ser resolvido.
2. A Reação
2. A Reação
Paulo dá duas propostas de resolução. Uma para os prevaricadores e outra para os lesados.
Para os que vivem desordenadamente, Paulo diz que devem “trabalhar com sossego, comendo do próprio pão” [v.12]. Paulo manda e exorta em nome de Jesus!
Devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para viver do fruto do nosso trabalho, e não da exploração de outros.
Para os “lesados”, Paulo diz que apesar dos oportunistas, eles não deveriam cansar-se de “fazer o bem” [v.13]. Também deveriam “admoestar-lhes” [v.15], como irmãos (pois não são inimigos), se não, deveriam “apartar-se” [v.6a] e “não se misturar” [v.14].
A preocupação de Paulo é evidente. Os comportamentos e atitudes são contagiosos.
Precisamos de nos afastar de quem não tem atitudes que edifiquem a fé e a sã vivência cristã. Ser Cristão também é ser firme e convicto. Nunca iremos amar mais as pessoas do que Deus, e é Deus quem reprova e nos exorta a nos afastarmos de quem negligencia voluntáriamente e recorrentemente a fé.
3. A Aplicação
3. A Aplicação
O texto que lemos diz respeito àqueles que não querendo trabalhar aproveitam-se da generosidade da igreja para subsistir…, materialmente falando.
Mas e espiritualmente? Podemos traçar o mesmo paralelo?
Como vimos na introdução, não há uma real distinção entre trabalho “sagrado” ou “Secular”. Deve ser tudo para glória do Senhor. Trabalho é trabalho, pelo que os principios que o rege é transversal em todas as àreas.
Neste sentido, sim. Podemos traçar o paralelo com o “trabalho” espiritual:
Será que não estamos a procurar viver a nossa vida espiritual na completa dependência do que outros fazem em nosso favor, dos beneficios que retiramos de pessoas e circunstâncias?
Quando esses supostos “benefícios”, pessoas e circunstâncias se desvanessem, onde fica Deus? Como fica a nossa vida espiritual? Onde fica a Igreja? - Que autonomia espiritual espiritual temos?
O papel da pregação e do ensino com substância tem precisamente essa função: Produzir cristãos autónomos, saudáveis espiritualmente.
Por isso é que dos novos convertidos, é esperada a dependencia nos primeiros passos da fé. Mas o que dizer de nós quando não desenvolvemos a nossa autonomia espiritual? Notem que não estou a falar de indepêndencia (a igreja é um corpo interdependente), mas de autonomia.
Quando não somos autónomos vivemos o nosso relacionamento com Deus e com a Igreja numa relação de dependência, ao estilo: Ou me sustentam ou morro à fome… É o tudo ou nada. Cobramos o nosso direito de sermos alimentados/cuidados, sem nunca assumirmos a responsabilidade do que deviamos dar, e não damos.
Tal e qual aqueles que em Tessalónica queriam apenas comer, sem nunca contribuir para tal…
Queremos atingir a autonomia espiritual, ou se quiserem, a maturidade. Quando somos autónomos, vivemos sabendo o que podemos receber numa relação de interdependencia com a igreja, sim, mas vivemos também na certeza da nossa responsabilidade e contributo para o corpo.
Conclusão
Conclusão
Que Deus nos ajude a não desistirmos de “trabalhar” para o Senhor, seja em que área for da nossa vida.
O trabalho é digno, é importante. Assumir responsabilidades é digno e importante. O contributo de todos é fundamental, na igreja e na vida.
